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Product, Visual & Brand Designer

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Uma pérola, não uma letra

Empresa

Centeni

Posição

Founding Designer

Indústria

Healthtech

Plataforma

Brand

Quando André Leite e Felipe Cabral me chamaram para criar a identidade da Centeni, a primeira coisa que fiz foi perguntar para eles como seria a empresa se ela fosse um ambiente físico. É uma pergunta que aprendi a fazer como arquiteto aprende a ler um programa antes de riscar qualquer linha. Não estou perguntando sobre o negócio, estou perguntando sobre o gosto. A resposta revela mais sobre o que a marca precisa ser do que qualquer briefing formal.

Eles descreveram algo refinado e autoral. Contemporâneo brasileiro: não importado, não genérico, não seguro. Ficou claro: a identidade da Centeni precisaria carregar surpresa. Algo que você não esperava encontrar num produto de saúde.


Antes de qualquer forma ser desenhada, tomei uma decisão que definiria o projeto inteiro: nós não íamos começar pelo logo. Argumentei que mais valioso do que o símbolo é a história que se conta. A história perpetua o valor da marca. Um bom storytelling não é sobre comunicar: é sobre criar um instrumento de cultura que alinha equipes, inspira decisões e une todo mundo em torno do mesmo propósito. Os founders toparam. A história veio primeiro.


A grande história da Centeni começa com os lugares onde as pessoas vivem muito além dos 100 anos com autonomia, vitalidade e baixa incidência de doenças crônicas. Eles são chamados de Blue Zones, termo criado pelo pesquisador Dan Buettner com a National Geographic ao identificar cinco regiões com padrões de vida capazes de prolongar a existência humana de forma significativa. Buettner circulou essas regiões num mapa com uma caneta azul. Daí o nome.

Mapa das cinco Blue Zones do mundo, do documentário Live to 100, Netflix

3 senhoras centenárias em Okinawa, Japão

A Centeni propõe ser uma Blue Zone digital: um lugar que guia cada pessoa rumo à melhor versão de si mesma aos 100 anos. Trazer esse universo para dentro da narrativa foi uma iniciativa minha: a âncora conceitual que justificaria cada decisão visual que viria depois.

Senhor centenário na Sardenha, Itália

O símbolo que mais nos seduziu foi um C em forma de emblema, como um carimbo antigo. A lógica era elegante: C de Centeni, mas também C de 100 em algarismos romanos. O número que define o objetivo da empresa. O emblema também ressoava com o pilar de rigor científico: a ideia de uma marca como chancela do que é clinicamente comprovado.

O que me fez abandoná-lo foi perceber que ele não expandia. Um símbolo precisa ser capaz de se tornar um sistema, precisa carregar cor, forma e conceito o suficiente para evoluir além de si mesmo. O C como emblema não tinha esse potencial. Matei a ideia. Foi a decisão certa.


Trabalhei a partir de quatro critérios que defini antes de explorar qualquer forma: o símbolo já deve nascer valioso, gerar atração imediata, despertar desejo e despertar confiança. Cheguei à pérola.

"A pérola simboliza o que temos de mais valioso e precioso: a nossa saúde. Não é apenas bonita: ela expressa o valor da saúde."

A pérola é azul porque ela é uma Blue Zone. O azul foi a cor que Buettner usou para circular no mapa as regiões de maior longevidade. Ao adotar esse azul, profundo, luminoso, que vai do marinho ao quase-branco, a pérola carrega a memória cromática das Blue Zones em si mesma.

Pôster impresso e ícone de app. A pérola em duas escalas

Site centeni.com.br em uso. A pérola como hero da página inicial

Quando mostrei para os founders pela primeira vez, pediram para ver a pérola girando no próprio eixo, para existir em três dimensões. Foi o momento em que entendi que o símbolo tinha funcionado: o cliente não queria entender a pérola. Queria tocá-la.

A escolha tipográfica não foi estética. Foi histórica. A Caslon foi criada em 1720 durante o Iluminismo, usada nas primeiras enciclopédias médicas e atlas anatômicos. Para uma empresa "rigorosamente científica", usar a Caslon não é decorativo: é semântico. A fonte carrega trezentos anos de autoridade científica em cada glifo. A versão escolhida foi a Libre Caslon Condensed de 2023: letras condensadas, impacto editorial, a tensão de um manifesto com a leveza de quem convida.

Cyclopaedia, 1728. A Caslon como tipografia da ciência desde o Iluminismo

O wordmark em serifa caixa baixa completa a equação: a caixa baixa convida, a serifa dá gravidade. Seriedade amigável, algo que poucas marcas de saúde conseguem.

Pôster em dois modos: símbolo isolado e logotipo sobre fotografia

Entregamos símbolo, logotipo, tipografia, paleta e primeiras aplicações. O manual de marca ficou para depois, deliberadamente. Precisamos ver esse símbolo sendo percebido e recebido no mundo real antes de cristalizar as regras de um sistema. O manual será construído sobre evidência, não sobre suposição.


Aqui preciso ser honesto sobre uma regra que quebrei. Em todos os projetos anteriores me impus um limite: símbolo 2D, cores sólidas. A pérola viola isso: é tridimensional, tem uma imensidão de tons em gradiente, cria problemas reais no meio físico. A decisão foi estratégica: a Centeni é uma empresa digital. A partir desse projeto, carrego uma convicção nova: qualquer símbolo pode quebrar as regras do ofício, desde que seja de forma consciente e com razão clara.

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